Joel quer curar-se do amor. Esquecer. Alex sabe que não há cura para a ultra-violência. Mas é obrigado a tentar esquecê-la. E se os dois protagonistas de O Despertar da Mente (Brilho eterno de uma mente sem lembranças; Eternal sunshine of the spotless mind) e Laranja Mecânica (Clockwork Orange) se encontrassem?
1. (Interior. Memórias de Joel. Hora indefinida)
Joel tenta salvar uma memória de Clementine mas é interrompido por Alex.
Alex: Bem, bem, bem, bem, bem, bem, bem! A que devo o extremo prazer desta surpreendente visita?
Joel: Desculpa? Foste tu que entraste na minha cabeça. A surpresa é minha!
Alex: (sorriso sarcástico) Sim, a velha visita surpresa! O prazer da ultra-violência!
Joel: Mas quem és tu? Eu não me lembro de ti…
Alex: Nós nunca nos conhecemos. Houve um problema na minha lavagem cerebral e parece que a minha mente foi enviada para aqui… Que tratamento estás tu a fazer?
Joel: Estou a apagar a minha ex-namorada. E tu?
Alex: Estão a tentar curar o meu fascínio pela ultra-violência. Mas as lavagens cerebrais são uma perda de tempo, acredita.
Joel: Porquê?
Alex: A memória não é tudo. Quando algo te invade, entranha-se no teu íntimo e é impossível fugir. Podes apagar todas as memórias que tens da tua ex-namorada, mas nunca apagarás o seu cheiro, o sabor dos seus lábios… Isso não são memórias, são já partes do teu corpo. Nunca esquecerás como aprendeste que o coração tem um ritmo diferente quando se está apaixonado. Os sentimentos são como uma doença que não é descoberta a tempo e por isso se alastra a todo o corpo. Vão-nos consumindo pouco a pouco, silenciosamente, entram no nosso sangue, contaminam o ar que respiramos e ficam lá… para sempre. Alimentam-se da nossa vida, por isso é impossível matá-los.
(Calam-se. Joel e Alex perdem-se em memórias que ainda têm, momentos sublimes eternamente alojados algures num circuito de neurónios que desencadeiam um estímulo arrepiante na espinha e na epiderme. Alex refugia-se na música de Ludwig van Beethoven. Joel perde-se no colorido mar dos cabelos de Clementine.)
Joel: Podia morrer agora. Estou… feliz! Nunca me tinha sentido assim. Estou exactamente onde queria estar.
Alex: É engraçado como as cores da vida real nos parecem mais reais nas nossas memórias.
2. (Interior. Local e tempo desconhecidos.)
O Amor e a Ultra-Violência jogam xadrez.
Ultra-Violência: Não tentes fazer batota!
Amor: Batota?
Ultra-Violência: Eu sei que vais tentar… tu ganhas sempre porque confundes as pessoas. Apoderaste lentamente da atenção e da confiança delas… até as deixares indefesas, até as tornares prisioneiras-voluntárias da tua presença…
Amor: Não me podes criticar! A forma como te apoderas das pessoas também deixa muito a desejar… fazes por te mostrar todos os dias, em todo o lado, fazes por te tornar banal e aceitável… entranhas-te nas pessoas sem que notem e assumes o comando das suas acções quando elas menos esperam. És o que de pior existe nos humanos!
Ultra-Violência: Tu não és melhor do que eu! Tu também magoas as pessoas. Quantas vezes apareces quando ninguém espera? Quantas vezes te vais embora sem sequer deixar uma explicação? Não há cura para ti… mesmo que todos desejem que não existas, tu não desapareces. És uma condição, um vírus, uma maldição, uma doença…
Amor: Eu sou uma dádiva! Eu liberto o que de melhor existe na vida… as pessoas é que me complicam!
O Amor faz finalmente a sua jogada. A Ultra-Violência olha para o tabuleiro de jogo.
Ultra-Violência: O que fazemos? Declaramos que é um empate?
Amor: Sim… parece que empatámos… outra vez…
3. (Interior. Memórias de Joel. Hora indefinida)
Alex: Estás a desaparecer. Devo estar a sair da tua mente.
Joel: O que fazemos agora?
Alex: Aproveitamos o tempo que nos resta.
Joel: Acreditas que haverá uma segunda oportunidade para o amor?
Alex: Se ela existe para a ultra-violência… não vejo porque não haverá para o amor. No final de contas não há grande diferença entre eles, pois não?
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