Crimes
(para o Mário, pela sugestão)
Londres, 1977
15 de Janeiro
Ana está sentada perto da janela. Lê o jornal enquanto espera que Jorge acabe de se vestir. Na secção de cultura, uma breve desperta-lhe a atenção “Morreu Anaïs Nin”. Tenta recordar-se de onde conhece esse nome… uma escritora? Dirige-se a uma estante na outra ponta da sala, demora-se um pouco pelos títulos dos livros até encontrar o que pretende. Cá está, Little Birds de Anaïs Nin. Jorge entra na sala e espreita por cima do ombro de Ana. Se quiseres podes levar, nunca li, acho que me ofereceram num aniversário. Ana olha-o. Ela morreu, diz-lhe mas pela expressão de Jorge percebe que ele não entendeu. A escritora morreu, vem a notícia no jornal. Ele responde com um simples e desentendido Ah! e apressa-se para a porta. Vamos? Já devem estar todos à nossa espera. A manifestação está marcada para as quatro. Ana não faz a menor ideia se se vai manifestar contra ou a favor. Na verdade, não sabe que manifestação é esta mas como parece tão importante para Jorge nem se atreve a fazer perguntas. Quer impressioná-lo, há meses que não conhecia um homem tão interessante e não quer desperdiçar esta oportunidade.
Três meses depois
Há duas semanas que há problemas no metro. Dizem que é por motivos de ordem técnica, eu sei lá, pode ser uma greve dissimulada, um pseudo protesto. O que não deixa de ser uma teoria perfeitamente aceitável, não achas? O mundo não caminha para um futuro brilhante, pelo contrário… Ana ouve a mesma conversa todos os dias. No início pensava que Jorge era demasiado utópico para o seu gosto mas isso nunca a preocupou, Ana acredita que uma mulher pode mudar um homem. O problema foi essa característica ter deixado de ter importância. Jorge é agora um hipócrita, um pouco cínico até… estou farto de conversas e demagogias. Alguém tem de fazer alguma coisa pelo mundo, continuarmos passivos enquanto tudo desaba à nossa volta é um crime! Um crime?, repete Ana mentalmente. Sem querer, passa do diálogo mental para a conversa. Estás a tentar dizer que é um crime não fazer nada pelo mundo e aquilo que tu vais fazer para mudar isso é assaltar uma loja? Vais cometer um crime para mostrares a tua aversão a outro crime? Não me parece lá muito inteligente…Mal acaba de proferir estas palavras, Ana lê na cara de Jorge a surpresa de quem não estava à espera de ser apunhalado pelas costas. Se não quiseres não venhas, a escolha é tua e não fico chateado, mas não me digas que somos burros por fazer isto. O governo pilha as nossas vidas, o nosso futuro, assaltar uma loja é uma analogia…Ana sente-se agora uma formiga perante a forma de pensar de Jorge. Sou tão estúpida! Ele percebe que a situação a incomoda e tenta arranjar um motivo de conversa que desanuvie o ambiente. Olha em volta e repara num cartaz pendurado no átrio de um cinema. Para a semana vamos ver isto? Star Wars! Soa-me bem…
Junho
Jorge está vinte minutos atrasado. Ana espera-o no café do costume. Desculpa, foi por uma boa causa. Tenho uma prenda para ti. Desajeitadamente, como lhe é típico, Jorge tira um pequeno embrulho do bolso das calças. Toma. Ana pega na sua prenda, curiosa e receosa de a abrir. É um pin!, exclama mentalmente quando desfaz o embrulho. Sabes que eu não tenho jeito para palavras… achei que assim era mais fácil... e mais romântico… Ela olha-o sem perceber muito bem o que ele está a dizer… Jorge mantém uma expressão de ansiedade e expectativa… Então?, pergunta-lhe. Ana baixa os olhos para ler o que diz o pin. “I wanna be your boyfriend”. Sorri quando dirige novamente o olhar para Jorge.
Outubro
“O Nobel da Literatura foi anunciado hoje. O poeta Vicente Aleixandre…” Ana desliga o despertador e aninha-se no corpo de Jorge. São oito horas, murmura-lhe ao ouvido tendo como resposta um grunhido ensonado e imperceptível. Conheces esse poeta?, pergunta Ana. Qual poeta?, resmunga ele numa voz pouco paciente para perguntas difíceis logo de manhã. O que ganhou o Nobel. Jorge mantém-se calado uns segundos. Não conheço muito mas tenho um livro dele. Há um poema que gosto muito…Canción a una muchacha muerta. Ana insiste nas perguntas. O que quer dizer muchaca? Jorge responde-lhe barata. O breve silêncio que se segue tranquiliza Jorge, parece que pode finalmente voltar a adormecer e esperar que o despertador toque outra vez, dez minutos depois, para aí sim se levantar e ir tomar banho. Acho que barata se diz cucaracha…Jorge abre um olho e observa Ana como que pedindo piedade.
Novembro de 2005
Ana está sentada perto da janela. Lê o jornal enquanto espera que Jorge acabe de se vestir. Na secção de cultura, uma breve desperta-lhe a atenção “Sex Pistols vão fazer parte da Rock and Roll Hall of Fame”. Sorri ao ler este título. Jorge indaga-a ao entrar na sala. O que é esse sorriso? Ana passa-lhe o jornal, indicando a notícia que estava a ler. Ambos se recordam que há 29 anos se conheceram num concerto dessa banda. Jorge pousa o jornal e num tom sério relembra a Ana a sua versão da história. Eu não estava lá para ver esses parvos, fui pelos Clash. Ela levanta-se e abraça-o. Sim, sim… e assaltar lojas com o Joe Strummer era uma analogia…
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