Friday, April 20, 2007

Depois do Destino - Acto II/IV

II. O Silêncio

Mariana chega a casa à hora do costume e com o habitual olhar breu de quem dedica a maior parte do seu tempo a um trabalho que odeia e pelo qual recebe abaixo do que esperava. César ultima o jantar. "Como foi o teu dia?", pergunta. A mulher responde "Cansativo… e o teu? Correu bem?". A única coisa que ouve da resposta do marido é "Sim…".

Há algum tempo que esta pergunta se tornou retórica para Mariana. Não quer saber se o colega voltou a chegar atrasado, se havia trânsito quando regressou a casa, se lhe dói a cabeça ou melhorou de uma constipação, se apanhou chuva ou o ar condicionado do escritório avariou, se havia peixe descongelado mas lhe apeteceu fazer massa com legumes estufados… para quê?

Há também algum tempo, mas mais recentemente, que César se apercebeu que o estado de ausência mental e emocional da sua mulher se tem vindo a agravar. Afinal, as hormonas não são a causa deste mal-estar… ou serão? "Estará grávida?", pensa. "Porque não me diz nada?". César começa a preocupar-se. Sempre foram um casal mais silencioso do que efusivamente falador, mas nunca o silêncio o havia incomodado.

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