I.
No apartamento, com duas prostitutas
Diniz: Gostam de Victor Espadinha? Sou fã dele desde… desde sempre, já era um dos favoritos dos meus pais. Victor Espadinha é o Leonard Cohen português mas numa versão mais terrestre, mais palpável, mais popular…
(coloca um cd na aparelhagem)
Diniz: “Recordar é Viver” é indiscutivelmente a obra-prima de Espadinha.
(selecciona a música e faz sinal para que as prostitutas o sigam para o quarto)
Diniz: É uma meditação épica sobre o amor, ao mesmo tempo sobre a sua característica intrínseca de sofrimento e sobre a sua perenidade nos momentos adversos. Cristina, despe-te.
Diniz pega numas algemas e entrega-as a Cristina.
Diniz: Ouçam esta orquestração… ouve-se o sofrimento deste homem na melodia, a sua vontade de chorar que brilhantemente repudia e tenta suster. Sabrina, tira o vestido.
Diniz começa a despir-se.
Diniz: E a letra? O que dizer desta letra magnífica? Sabrina, dança.
(Sabrina faz um stiptease em frente a Diniz. Cristina está sentada na cama.)
Diniz: Reparem no verso “foste a trinta de Fevereiro de um ano por inventar”… não é genial? Terá sido ela a trigésima amante dele que de tão especial o marcou… ou terá partido ela para sempre, guardando ele a memória desse facto numa data que prefere que não exista?
(Diniz liga a câmara de filmar.)
Diniz: Cristina, algema a Sabrina à cama.
(Diniz regressa à sala e coloca a música do início. Regressa ao quarto.)
Diniz: Espadinha é um verdadeiro artista da canção nacional! Vamos ouvir outra vez…
II.
No apartamento, com as mesmas prostitutas.
Diniz: Sabiam que no ano em que a Dora concorreu ao Festival da Eurovisão ganhou a nomes como Trabalhadores do Comércio, Carlos Moniz e Lara Li? Uma vitória bem merecida, com o tema “Não sejas mau p’ra mim”.
Cristina: Tu vês o Festival da Eurovisão? Sabes quem ganhou e com que música? Gostas dessa música da Dora?
(Às gargalhadas, Cristina cai do sofá, rebolando para o chão.)
Diniz (ignorando o riso de Cristina): Dora perdeu o Festival para uma miúda belga de 13 anos. Uma injustiça! Dora era a Madonna portuguesa, a esperança musical deste país.
(Diniz coloca o cd na aparelhagem.)
Diniz: Nunca mais se ouviu falar nela… “Não sejas mau p’ra mim”… e depois? Completamente esquecida… o que será feito da Dora?
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