Friday, April 20, 2007

Lente Indiscreta

Deitada na minha cama, tenho ao fundo, do lado esquerdo, o monitor do computador, ideal para ver dvds no quarto. Do lado direito, uma televisão para me fazer companhia nas noites de insónia. Em frente, uma varanda com vista para a janela dos vizinhos. Nunca os vi, não sei quem são. As persianas estão sempre corridas, nunca vi luzes acesas. Não fossem as obras que fizeram e os camiões de mudanças e eu pensaria que a casa nem era habitada. A única rotina que lhes conheço é abrirem as persianas e as janelas à sexta-feira, enquanto são feitas as limpezas. Uma vez vi uma mulher a sacudir um pano do pó à janela, mas não sei se mora lá ou se é uma empregada. Pela janela aberta, apenas vi uma estante e um globo, igual aos das escolas primárias. São as únicas pistas que tenho para imaginar o que se passa atrás daquelas janelas sempre intransponíveis.

A estante não quer dizer absolutamente nada. Só a consegui ver de perfil, pode estar vazia, pode servir para expor troféus, pode estar efectivamente repleta de livros, pode resumir-se apenas à exposição de objectos coleccionáveis. Agora o globo… o globo é uma pista importante. Seja quem for esta pessoa (e duvido que a dona da casa seja a mulher que sacudiu o pano do pó à janela porque o pó que se acumula numa casa revela muito, quem se esconde atrás daquelas persianas não deitaria o pó revelador para a rua, deixando que se misturasse com as poeiras demais) tem uma forte ligação com o mundo.

Pode ser alguém que viaja muito, daí ter sempre a casa fechada. Todos os meses escolhe um país e viaja até lá. O mês passado esteve na Bulgária, agora está na Argentina, para o mês que vem irá para o Cambodja. Não sei que preconceito inconsciente me obriga a pensá-lo, mas quem mora nesta casa é um homem, entre os 29 e os 35 anos, loiro e com barba. A mulher do pano do pó não é uma empregada, é alguém da família – uma irmã, uma prima, uma cunhada, não sei – que se ofereceu para cuidar da casa enquanto ele viaja. E ele só o fará durante os próximos dois anos. Depois vai vender quase tudo o que tem em Portugal e instalar-se definitivamente no país que mais gostou de visitar.

Na pior das hipóteses é um professor de geografia com uma grande sensibilidade à luz.

Numa possibilidade mais sórdida, podia ser uma casa de prostitutas, ou mesmo uma casa particular em que simplesmente a pessoa que lá mora se dedica a prazeres carnais que mantém obscuros. Assim, quem lá mora é obrigatoriamente uma mulher, com mais de 40 anos mas com menos de 55, alta e morena. Uma possibilidade que cai imediatamente por terra – não imagino uma ligação com o globo nem sequer há uma movimentação estranha de entradas no prédio.

Na melhor das hipóteses, é um casal de reformados, tradicional e religioso. Compraram a casa porque acharam o bairro simpático e um apartamento em Lisboa é mais fácil de manter do que a vivenda enorme com jardins onde moravam. Essa ficou para o filho, já casado e com três filhos. O globo não é mais do que um candeeiro. Mas algo os obriga a manter as janelas e as persianas fechadas. Algo que temem. Talvez a vizinha que mora em frente. Não sei o que conseguem ver através da minha varanda, mas talvez tenham reparado no poster do Nosferatu junto à cama e num boneco do Freddy Krueger numa estante. E é impossível não reparar na bruxa feita de palha e com um metro e vinte centímetros que coloquei virada para a varanda. Talvez os assuste estas referências. Quando contrataram a emprega para as limpezas, disseram-lhe que só poderia trabalhar à sexta-feira, o único dia em que durmo até mais tarde e tenho as persianas corridas a manhã inteira. Faz sentido. Todo o pó acumulado é deitado à rua e com ele as más vibrações dos monstros que habitam a casa em frente.

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