Friday, April 20, 2007

Nós roubávamos bancos!

Domingo é dia de almoço em casa do filho. Toda a família está reunida e Bonnie & Clyde, como sempre, mimam o seu neto com prendas.

Filho: Uma bicicleta? Onde é que vocês foram buscar uma bicicleta?

Bonnie: Calma! Eu tinha algum dinheiro de parte da comida que vendo para fora e comprei uma bicicleta.

O filho conhece o passado dos seus pais. Reconhece que é uma linda história de amor, mas não se orgulha da parte criminosa. À excepção da sua mulher, mais ninguém sabe que é filho de dois dos mais famosos assaltantes de bancos porque Bonnie & Clyde fugiram de carro para o México, onde depois apanharam um avião para a Europa. Hoje, são dois velhinhos anónimos e amorosos como tantos outros que povoam as ruas de Paris. Já o neto desconhece a vida passada dos seus avós. Apenas lhe contam a versão censurada em que Bonnie & Clyde, dois agricultores do interior americano, afectados por uma enorme crise financeira, se viram obrigados a emigrar para a Europa. Mas é uma criança esperta e algo nesta história lhe soa a falso.

Neto: Avó, na vossa quinta havia cavalos?

Bonnie: Sim, tínhamos muitos animais, cavalos, vacas, porcos… a quinta era muito grande! Seria muito bom teres crescido lá, mas a crise era muito grande. Eu e o teu avô tivemos de deixar tudo.

O filho baixa a cabeça e fecha os olhos.

Neto: Então mas o pai disse-me que era uma quinta pequena, sem animais e que por isso é que ficaram sem dinheiro e vieram para França.

Clyde: Ah! Isso foi o que lhe contámos quando ele era pequeno para não ficar triste. Mas tu és um homem forte, consegues aguentar a verdade.

Já várias vezes Bonnie & Clyde quiseram contar a sua história ao neto, mas o filho não quer. É um importante advogado parisiense, saber-se que é filho do casal seria um escândalo. Para cúmulo, o caso em que está a trabalhar agora é a acusação de um assalto a um banco.

Neto: Pai, ainda não te disse… ontem apareceste na televisão! A jornalista estava a falar do que se tinha passado no tribunal e aparecias tu a descer as escadas e a dizer que não às câmaras.

Filho: Sabes que o pai não pode falar nessas coisas. Temos de mudar de assunto.

O neto levantou-se, nem pediu licença para sair da mesa, e foi para o seu quarto. Sendo uma criança extremamente educada, todos estranharam esta birra infantil. Segundos depois, voltou com um livro na mão.

Neto: Só mais uma coisa que eu descobri e depois não falo mais nisto, juro! A jornalista disse também que este assalto lembrava a lenda de Bonnie & Clyde. Como eu não sabia o que era fui procurar nos livros e encontrei essa história. Era um casal americano que assaltava bancos. E tem uma fotografia, olhem! Não são parecidos com os avós? Até têm o mesmo nome!

Enquanto a criança mostra a fotografia do livro, o pai olha a mãe como que dizendo: “não acredito que o deixaste a ver televisão sozinho!”. Bonnie não resiste.


Bonnie:
Ao menos podiam ter escolhido uma foto em que eu estivesse de boina! A boina era a minha imagem de marca!

Clyde: E ficava-te tão bem!

Os velhinhos Bonnie & Clyde beijam-se apaixonadamente, enquanto recordam os seus tempos de maus da fita. O filho, incrédulo, tenta pensar numa desculpa que mantenha o anonimato dos seus pais. Mas é surpreendido pela distracção da criança.

Neto: Oh! Os avós às vezes parecem mais apaixonados do que tu e a mãe! Só mais uma coisa, juro que é a última! Pelas datas desta história, estes assaltantes viveram na mesma altura em que os avós tinham a quinta. Foi por causa deles que deixou de haver dinheiro e tiveram de vir para cá e deixar os cavalos sozinhos?

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