De certeza que vai acontecer esta noite! Há coisas que são certas e nada estão relacionadas com o sexto sentido ou poderes de adivinhação. Sabe-se que vão acontecer, só isso. Não está escrito, não é o destino nem sequer um desenrolar óbvio dos acontecimentos mais recentes. São factos, só isso. É esta noite, de certeza.
César está a um canto (pode parecer que escolheu essa mesa para criar um ambiente mais romântico mas a verdade é que sofre um pouco de baixa auto-estima e odeia ser o centro das atenções, por isso escolhe sempre sentar-se nos cantos quando está em público, na esperança que ninguém repare nele). Mariana anda à procura de lugar para estacionar o carro. As ruas estão impossíveis, já há carros estacionados em segunda fila e em cima das passadeiras. Por sorte, um carro estava a sair de um lugar e Mariana deu por isso. Fez uma pequena infracção, é verdade, mas tudo é válido quando o que está em questão é conseguir estacionar o automóvel (desta vez escapou, mas dentro de três anos será apanhada a conduzir com excesso de velocidade e ficará sem carta de condução durante uns meses).
Entretanto, César vai ficando cada vez mais nervoso. Será que ela não vem? Será que ainda não decidiu o que vestir? Será que ela gosta mesmo de mim? Será que lhe devia ter comprado uma prenda? Será que ela gosta de rosas? Será que ela desistiu? Será que eu mereço uma mulher assim? Chama o empregado de mesa (Francisco, 35 anos, um dia vai sonhar com uma combinação de números, joga na lotaria e ganha o primeiro prémio) e pede mais um café.
Seria de esperar que as dúvidas de César de dissipassem ao ver Mariana entrar, mas o nervosismo aumenta. Entorna a chávena de café (quem vem limpar a mesa é outra empregada, Célia, 27 anos, num futuro próximo vai alistar-se numa organização não governamental porque quer mudar o mundo e sente que não o pode fazer de avental, caminhando entres as mesas e o balcão) e só lhe apetece fugir. Mariana, geneticamente munida do especial sexto sentido feminino, percebe de imediato que precisa de o acalmar.
“Repara no lado positivo, um encontro que começa mal não pode piorar, só pode melhorar”, e usa o sorriso número 23 do catálogo dos sorrisos a usar num encontro amoroso.
César, o elemento nervoso, age na continuação da noite como um trapezista sem rede, numa lógica de tentativa e erro e só espera estar a sair-se bem. Mariana, o elemento dominador, conduz a acção para as tentativas correctas, empurrando ou travando o trapézio nos números mais arriscados. Sabe que o final feliz depende de si.
Às 23h17, recorre à estratégia número 7, depois de ter usado todas as outras à excepção da número 2 – passar insistentemente a mão pelo cabelo – que nunca percebeu. Passa os dedos pela boca do copo, a um ritmo nem demasiado lento nem tão rápido que torne o movimento desajeitado, enquanto sorri timidamente (sorriso número 41 do mesmo catalogo que usou há pouco) e fixa o olhar na mesa. César estica a sua mão e pára nos dedos dela que acariciavam o copo. Não percebe de onde surgiu esta tentativa, mas parece estar a sair-se bem. Pelo menos, Mariana levantou a cabeça e olha-o enternecida.
Beijam-se dezanove segundos depois. Se é para durar depende deles, há coisas que não se adivinham, vão-se escrevendo todos os dias. É o destino.
3 comments:
César, César...
É nome de imperador, avé!
mas este César não é muito de chegar, ver e vencer...
Huuummm...isto é para se ficar curiosa! :)
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