Friday, April 20, 2007

O Carteiro de Fernando Pessoa

Massimo é carteiro e encerra nesta profissão o peso da tradição familiar. O seu pai, o seu avô, o seu bisavô, todos haviam sido carteiros.

Massimo gosta do sorriso e do olhar luminoso das senhoras que esperam cartas de amor e desdenha a entrega de correspondência em escritórios, é um trabalho frio, impessoal e até mesmo pesado. “Literalmente pesado quando há encomendas” é a piada que repete vezes sem conta, ao jantar, quando o pai lhe pergunta “Então, Massimo? O dia correu bem?”. É-lhe indiferente se chove ou faz sol, se está muito ou pouco calor. Se parasse para pensar, talvez descobrisse que não gosta de ser carteiro mas nunca o fez e só a ideia de quebrar a tradição familiar é suficiente para afastar tamanhas reflexões.

Massimo faz a ronda de Campo de Ourique, em Lisboa. Todos os dias há correspondência endereçada ao número 16 da Rua Coelho da Rocha, para um tal de Fernando Pessoa. Massimo já se cruzou com ele, duas ou três vezes. Considera-o um homem caricato. Mais do que isso, considera que este homem é a personificação do adjectivo caricato. Acha-o simpático mas algo inacessível. Viu-o sempre acompanhado de outros homens, possivelmente amigos, já que nunca há correio com outro destinatário que o próprio Fernando Pessoa e por isso não devem morar com ele.

Certo dia, estava Massimo a distribuir as cartas pelas respectivas caixas de correio do prédio, quando Fernando Pessoa, desta vez sozinho, desce as escadas e se dirige a ele. “Tem correio para mim?”, perguntou. “Não… estranhamente hoje não há”, respondeu Massimo. “Já calculava. Pode fazer-me um favor? Já estou atrasado, não tenho tempo, trate de enviar-me esta carta.”, e esticou um envelope que Massimo de imediato recolheu. “Esteja descansado, assim o farei”. Esperou que Fernando Pessoa saísse do prédio, quase não aguentando a curiosidade, e leu o envelope. “Para Ofélia, Largo do Camões”.

No final do dia, Massimo tinha ainda a carta guardada no bolso do seu casaco. Alheio ao pecado que cometia em extraviar e ler uma carta, sem reflectir na vergonha que iria manchar a sua tradição familiar, Massimo abriu a carta escrita por Fernando Pessoa a Ofélia e leu-a de rompante, ansioso.

19.2.1920

ás 4 da madrugada

Meu amorzinho, meu Bébé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.

Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.

Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!

Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta - a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d'elle, quando não tens para isso razão nenhuma?

Estou inteiramente só - pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.

Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.

Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando

“Que raio!”, pensou Massimo. “Tanta carta que este homem recebe da sua amada e nunca lhe vi um sorriso, um olhar luminoso, nem sequer a ansiedade típica de me esperar à janela e descer as escadas a correr para impedir que o envelope seja colocado na caixa de correio e assim o receber em mão, subindo depois as escadas em nova correria para se ir dedicar à leitura das palavras de amor”. Colocou depois a carta na secção de distribuição, para que chegasse ao destino no dia seguinte.

Algumas semanas se passaram e Massimo nunca mais se cruzara com Fernando Pessoa. Até ao dia em que entra no prédio um dos homens que o costumava acompanhar. “Bom dia! Sou Álvaro de Campos, amigo do Sr. Fernando Pessoa. Há correspondência para ele?”, perguntou. “Sim”, e Massimo esticou na direcção do homem um envelope carmim levemente perfumado. “Ah! Novidades da Ofélia”. Massimo não resistiu. “O senhor é muito amigo dele?”. “Somos praticamente a mesma a pessoa”, respondeu o homem. “Pois deixe-me que lhe diga que tinha o Sr. Fernando Pessoa em grande conta até ler uma das cartas de amor que escreve a Ofélia. Agora acho-o ridículo”. O homem sorriu e respondeu

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

D'essas cartas de amor

É que são

Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.)

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