Friday, April 20, 2007

O divórcio e o homem que cita o cinema até à exaustão

Rodrigo chega a casa e repara que a sua mulher está estranha. É incapaz de o olhar nos olhos e, pela primeira vez em dez anos de casamento, o jantar não está pronto.

Mulher: Rodrigo, preciso de falar contigo. Senta-te aqui. Queres beber alguma coisa? Um copo de vinho?

Rodrigo: “Eu nunca bebo… vinho” (Drácula, 1931)

Mulher: Já deves ter reparado que se passa algo, reparas sempre nessas coisas. O que preciso de te dizer é muito sério, espero que me ouças até ao fim, por favor.

Rodrigo: “Totó, tenho a impressão de que já não estamos no Kansas” (O Feiticeiro de Oz, 1939)

Mulher: Estive a pensar na nossa vida e acho que não somos felizes. Há pelo menos dois anos que o nosso casamento descarrilou e não fizemos nada para voltar ao normal. Não achas?

Rodrigo: “Francamente, minha querida, estou-me nas tintas!” (E tudo o vento levou, 1939)

A mulher não esperava esta resposta. Esperava uma citação de um filme, já está habituada a esse hábito irritante, mas não esperava esta indiferença. Encara-o, pela primeira vez nessa noite, com um olhar mortífero.

Rodrigo: “Já matei um gajo por olhar para mim da mesma maneira que estás a olhar agora” (Ruas de Nova Iorque; Dead End; Beco sem Saída, 1937)

Mulher: Por favor, Rodrigo, isto é sério. Só te peço que me ouças e pares com essas citações.

Rodrigo: “Não me importo de escutar. Passo a vida a fazer isso.” (Paris-Texas, 1984)

Mulher: Acho que o nosso casamento nunca mais voltará a ser como era. Nunca mais seremos felizes se ficarmos agarrados um ao outro, não vale a pena, estaremos a desperdiçar as nossas vidas. Eu quero o divórcio!

Agora que ela esperava mais uma citação e respirava fundo tentando esmorecer a sua vontade de insultar o marido, Rodrigo fica em silêncio.

Mulher: Rodrigo, ouviste o que eu disse? Não dizes nada?

Rodrigo: “Estás a falar comigo?!” (Táxi Driver, 1976)

Mulher: Para mim chega! Acabou! O nosso advogado irá contactar-te. Como é possível? Casei com um homem carinhoso e preocupado, casei-me por amor, amei-te tanto e agora… agora és uma besta! Não te esqueças de telefonar à tua mãe para ela te consular, como sempre, dizendo que a culpa é minha, que nunca devias ter casado comigo, que eu nunca te mereci…

Rodrigo: “A melhor amiga de um rapaz é a sua própria mãe” (Psico, 1960)

A mulher sai de casa e Rodrigo pensa no que deve fazer. Ainda não jantou, mas também perdeu o apetite. Opta por ir para um bar. Ao balcão, uma prostituta mete conversa com ele.

Prostituta: Pareces triste… precisas que te alegre. Um homem tão bonito não merece estar triste. Há alguma coisa que posso fazer por ti?

Rodrigo: Não precisa de dizer nada e não precisa de fazer nada. Nada mesmo. Ou talvez só assobiar… Sabe assobiar, não sabe? Junte os lábios e sopre.” (Ter ou Não Ter; To have and to have not; Uma Aventura na Martinica, 1944)

A prostituta afasta-se com um ar desconfiado. Outra prostituta interpela-a.

Prostituta #2: Então? O homem parece de rastos, não conseguiste?

Prostituta: É homossexual!

Prostituta #2: A sério? Ele disse-te isso?

Prostituta: Não disse mas respondeu-me com uma citação da Lauren Bacall, deve ser!

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