“Ela vai pagá-las! Ela vai pagá-las!”. A caminho de casa, o pensamento de Luís repetia a frase incessantemente. Talvez para tomar coragem, talvez para a perder e aperceber-se de repente que não valia a pena. Há dois anos que não fumava. Laura, então sua namorada, agora sua mulher, como resposta ao pedido de casamento articulou, fazendo uso de pausas e de um tom de voz que pareciam estudados, a seguinte frase: “Só se deixares de fumar!”. Seguiu-se o silêncio. Luís não percebera se isso era um sim ou não. Sim, se deixares de fumar eu caso contigo? Ou não, não quero casar contigo e por isso invento esta desculpa?
Mas ao fim de dois anos, e na verdade não foram dois anos muito penosos, por Laura, o seu grande amor, Luís faria qualquer coisa, repetiu uma rotina já esquecida. Saiu do escritório, já ao anoitecer porque pela quinta vez consecutiva fizera horas extraordinárias, mesmo sabendo que não iria ser pago por elas, e a caminho de casa parou num quiosque de rua e pediu um maço de cigarros. É ilusão pensar que o fez por acaso, inconscientemente. Luís dirigiu-se ao quiosque por decisão, tendo até o cuidado de escolher um onde não o conheciam e não lhe diriam: “Então? Voltou a fumar depois de tanto tempo? A sua Laura não vai gostar de saber”. Por oposição, as únicas palavras que a empregada do quiosque disse foram “obrigada” e “boa tarde” quando devolvia o troco a Luís.
Cuidadosamente, guardou o maço de cigarros no bolso. Nem sequer o abriu. Talvez estivesse à espera da ocasião perfeita para voltar a fumar. Por minutos, abstraiu-se da sua sede de vingança e, enquanto caminhava pisando delicadamente as folhas que caíam das árvores, assobiou de improviso o seu tango preferido. Foi ao som dessa música que pela primeira vez beijou Laura, tinham então quinze anos, e também foi a primeira música que dançaram juntos depois de casados. Mas o pensamento de Luís não articulava estas memórias, ecoava apenas a mesma frase “Ela vai pagá-las!”. Nem sequer se questionava se o devia ou não fazer. Na sua mente, “ela vai pagá-las” e ponto final.
Chegado à porta do prédio, fez o habitual compasso de espera à procura das chaves perdidas num dos bolsos das calças. Mas neste dia demorou mais tempo. Teve primeiro de tirar o maço de cigarros e só depois as chaves. Prolongou o momento, observando o maço. Acabou por abri-lo, fazia sentido. Colocou um cigarro nos lábios mas não o acendeu. Simplesmente porque não tinha lume. Bem que podia ter comprado um isqueiro ou uma caixa de fósforos, mas não se lembrou. Subiu as escadas, até ao terceiro andar, e de imediato percebeu que o jantar era carne assada, sentia-se o cheiro à sua porta.
Entrou e dirigiu-se à cozinha. A mulher não estava lá. Foi até à sala de estar e viu a porta da varanda aberta. Gritou: “Laura?”. E ouviu como resposta: “Estou cá fora! Já viste a Lua que está hoje? Está uma noite de Lua cheia lindíssima!”. “Vou só lavar as mãos e já vou ter contigo, Laura”. Dito isto, regressou à cozinha. Pegou na caixa de fósforos, tirou um, posicionou melhor o cigarro nos lábios, acendeu o fósforo e com ele acendeu o cigarro. Tossiu. Há dois anos que não fumava, era de prever que se engasgasse. Depois, da gaveta de um
dos móveis da sala, retirou a sua lâmina. Espreitou para a varanda, Laura estava a beber uma chávena de chá, tinha tempo. Tirou o seu cinto e prendeu-o num puxador. Afiou um pouco a lâmina, sempre de cigarro ao canto da boca, e foi ao encontro da mulher.
Apareceu por trás, de cigarro ao canto da boca e lâmina na mão direita. Beijou-lhe a testa. Ela sorriu mas em segundos ficou com uma expressão séria e inspirou, dizendo depois: “Estás a fumar, Luís?”. Ele não respondeu. Com a mão que estava livre abriu bem o olho esquerdo da sua mulher e rasgou-o com a lâmina. Conta-se lá no prédio que sempre fora fã da Daryl Hannah e dias antes tinha visto o Kill Bill!
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