Friday, April 20, 2007

O significado não está nas coisas mas entre elas

Chegámos atrasadas ao cinema. Comprámos os bilhetes à pressa, sem vermos se a sala estava correcta. Descemos as escadas a correr, entregámos os bilhetes à lanterninha e ela respondeu, sem mudar a sua expressão carrancuda de quem preferia estar noutro sítio e não a trabalhar, “o filme começou mesmo agora”. Odeio entrar nas salas de cinema quando já está escuro. Não consigo ver nada e penso sempre que vou cair ou acabar por me sentar ao colo de alguém porque não percebi que a cadeira estava ocupada. Olhámos para a tela e vimos que a cena se desenrolava à volta de um alfinete de peito com uma pedra verde. A minha amiga disse “estamos na sala errada, isto é o Lulu on the Bridge”. Acho que não respondi. Ela acrescentou “ou se calhar não, o Lulu on the Bridge é sobre uma pedra mas é azul e esta é verde”. Ficámos caladas. Tínhamos a certeza de que era o filme errado. Queríamos ver o Velvet Goldmine e na tela nada se via de glam rock. Só uns miúdos no recreio da escola primária. Finalmente acabou o pré-genérico. Era o filme certo!


Algum tempo depois, não sei precisar ao certo, penso que umas semanas, cruzámo-nos com um homem na rua. Era igual ao Jack Fairy. Igual, mesmo igual. A roupa, o cabelo, o modo de andar. Só não tinha um rosto tão perfeito. Ainda o vimos mais duas ou três vezes. E tal como o do filme, o nosso Jack Fairy sabia que estava a ser observado mas não ligava, mantinha-se concentrado no seu andar e na escada imaginária que construía com o fumo do seu cigarro.

Quando o filme passou na televisão, gravei-o numa cassete vhs que acabou por se estragar de tanto uso. Não houve pessoa que viesse a minha casa que não fosse obrigada a ver o Velvet Goldmine. Acho que todos os meus amigos odeiam o filme por causa disso. Sei tudo de cor, as falas, o que é dito em voz-off, as letras das músicas… e não consigo estar calada a vê-lo. Anos mais tarde, o Velvet Goldmine foi o primeiro dvd que tive. Não por opção própria, mas porque a minha irmã o ofereceu juntamente com o leitor de dvd. Nunca mais mostrei o filme a ninguém. Ainda o revejo muitas vezes (a última foi hoje de manhã) mas sempre sozinha.

Dizem que todos os homens fantasiam com duas mulheres juntas. Para mim, as cenas homossexuais de Velvet Goldmine são dos momentos mais eróticos e mais românticos que já vi em cinema. O beijo prolongado de Ewan McGregor e Jonathan Rhys-Meyers, a cena em que estão a dormir abraçados, o momento de sexo entre McGregor e Christian Bale em que tudo nos é sugerido por um plano desfocado e afastado. Já vários homens me disseram que não gostam do filme por ser demasiado homossexual. Faço sempre questão de responder a esse comentário com um sorriso mentiroso. Um sorriso que copiei a uma das personagens do filme, Mandy Slade. Eles não percebem.

A única pessoa que viu o filme comigo e gostou foi essa minha amiga que foi comigo vê-lo ao cinema. Aí, eu não sabia as falas e a minha companhia era suportável. Uma das muitas coisas que adoro nesta amizade é que conseguimos falar por olhares. Basta olharmos uma para a outra e estamos a ter uma conversa, não são precisas palavras. E lembro-me do olhar que trocámos neste filme, principalmente quando aparecia o Ewan McGregor no ecrã. É o mesmo que usamos hoje quando ouvimos alguém dizer “eu adorei o Ewan McGregor no MoulinRouge”. Nós não gostamos de homens certinhos. A única diferença é que ela prefere o Chistian Bale no O Império do Sol e eu no Psicopata Americano.

Uma vez fui tomar um café com um amigo meu. Fomos depois ao supermercado porque ele precisava de detergente para a loiça. Ele tinha-se mudado há pouco tempo para uma casa no cimo da rua onde eu moro. Não me lembro se esta foi a primeira vez que lá fui. Se não foi a primeira, foi a segunda. Entrei, com o detergente na mão que segurei para que ele abrisse a porta, e o rapaz que dividia a casa com ele estava na cozinha. Quando nos aproximámos, reparei que tinha um CD na mão. Olhei discretamente para ver o que era. Perdi toda a compostura quando exclamei, algo histérica, “Ah! Velvet Goldmine!”. Fez-se silêncio. Envergonhada, disse “Olá, eu sou a Gabriela! Ouvi dizer que precisavas de detergente para a loiça…”

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