Friday, April 20, 2007

Preto e Branco

Se a minha vida fosse um filme, gostaria que fosse a preto e branco. Não em picos de emoção, coisas mornas também podem aquecer e refrescar, a Primavera e o Outono também acontecem. Apenas porque a preto e branco as acções ganham outra dimensão.

Se assim fosse, eu era uma mulher fatal. Quando pegasse num cigarro teria, no mínimo, três homens de isqueiro estendido para o acender. O meu cabelo nunca sairia do lugar e ninguém resistiria à minha imagem de perfil. A minha voz seria ligeiramente rouca, exageradamente quente. O meu nome? Lauren Bacall. Na maioria das vezes, falaríamos murmurando. É mais excitante assim. Mas quando houvesse perigo, os gritos seriam bastante sonoros, arrancados às mais profundas entranhas dos pulmões. Poderia ter uma profissão corriqueira, secretária talvez, mas teria uma personalidade aventureira que me aliciaria sempre para situações bicudas. E quase sem excepção, situações onde teria de ombrear com homens de chapéu, misteriosos, algo desconfiados, sedutores e bandidos. Nunca seríamos apanhados mas haveria sempre uma pista que levaria a polícia até mim. Usando o charme do preto e branco, nunca teria problemas judiciais.

Na minha mala teria sempre batom, um espelho, umas luvas, um lenço e uma arma. Na sala de minha casa, estrategicamente, teria uma garrafa de whisky e dois copos. Seriam para servir aos inspectores da polícia que me esperassem à porta de casa, enquanto retirava cuidadosamente os ganchos do cabelo e o soltava.

Ou então nada disto. Seria apenas uma simples mulher, conformada ao domínio patriarca da minha época, docemente submissa a um futuro marido. Seria muda. Ou melhor, articularia a boca mas não sairiam sons. Para saberem o que eu dizia, teriam de esperar pelos entre-títulos.

Dormiria de barriga para cima, numa posição forçada, como se estivesse à espera que alguém me atacasse. Como se oferecesse o meu pescoço aos dentes de alguém. Sabendo que, verdadeiramente, era mesmo esse o meu desejo. Algo que me libertasse da insipidez do noivado e me tornasse maior. Uma sombra que irrompesse no meu quarto, a meio da noite, e me bebesse das veias a vida comum, substituindo-a pela eternidade. E que me carregasse ao colo, se a transfusão corresse mal e fosse entregue à morte. O meu nome? Greta Schröder.

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