Friday, April 20, 2007

Resolução de um dia de Agosto

Sou adepta de uma daquelas coisas que muita gente faz sem saber muito bem porquê e sem pensar qual é o objectivo de o fazer: guardar bilhetes de cinema, de concertos, de idas ao teatro, de exposições, de viagens… papelinhos e papelinhos e papelinhos a envelhecerem juntos numa caixa rectangular às riscas coloridas, algures perdida numa prateleira.

Hoje vão todos para o lixo! Os de cinema, pelo menos.

Há excepções, não deitarei fora os convites de ante-estreias porque não são bocados de papel toscos, são semelhantes a um postal e merecem ser guardados.

É pena alguns bilhetes não terem data. Quer dizer, têm o dia e o mês, mas não têm o ano. Tenho bilhetes tão velhinhos! Recordações de idas ao cinema, partilhadas com pessoas que já não vejo há anos, algumas com quem simplesmente perdi o contacto, outras que resolveram desaparecer, outras ainda que eliminei por vontade própria, e que hoje deixarão de ter provas físicas.

Lembro-me de todos estes momentos. De todos, mesmo! Houve tempos em que o cinema era coisa reservada para a noite, noutra altura preferia ir ao cinema à tarde e sozinha. Não perdi esse gosto. Adoro as sessões vazias da uma da tarde e as sessões das quatro partilhadas com alguns estranhos, grupos de colegas de escola ou casais de idosos. Não acho muita piada às sessões do final de tarde – os finais de tarde servem para beber refrescos ou chás quentes, ou numa esplanada, ou aninhada a ver desenhos animados, o que não faço há mais de um ano (excepção feita aos períodos de férias) porque trabalho sempre até tarde. As sessões da noite apenas servem os compromissos sociais, estão sempre mais lotadas e nunca se sente que a luz se apaga e o filme começa para nós, mas sim para todas aquelas pessoas.

Tenho bilhetes em duplicado e não sei o que fazer com esses. Lembro-me que uma vez, uma amiga minha ficou com os bilhetes e quando lhe pedi o meu – para juntar à imaculada colecção – ela me disse que o tinha deitado fora. Fiquei doente! Há alguns com os quais seria engraçado fazer isso. “Olá! Eu sei que não nos vemos há algum tempo, mas estou a deitar fora os meus bilhetes de cinema e tenho alguns teus… era para saber se os queres ou se também podem ir para o lixo…” Lembro-me perfeitamente que um ex-namorado meu nunca queria o bilhete dele e eu guardava sempre os dois – se era superstição ou comportamento de miúda perdidamente apaixonada, não me lembro, mas fosse o que fosse, de nada me valeu. Não me lembrava é que tinha deitado fora os dele… não estão aqui, já os devo ter deitado fora… se foi superstição ou comportamento de miúda terrivelmente magoada, não me lembro…

Só não consigo desfazer-me de um bilhete de um cinema pornográfico que durante uns meses funcionou como cinema de reposições de filmes do Fantasporto. Porque será engraçado alguém vê-lo e perguntar-me: “Ah! Já foste ao Cine Paraíso?!” e eu responder: “Sim, mas não fui ver nada porno, foi uma reposição do Massacre no Texas original”…

0 comments: