Faixa 1. Her smell theme 01.37 minutos
De todos os cheiros, aquele que mais se entranha é o dela. Permanece dias a fio nos lençóis, nas almofadas, no ar, nos cortinados, nas roupas desajeitadamente atiradas para o chão. De todos os cheiros, mesmo tendo em conta a astúcia do cheiro a torradas e a sagacidade do perfume de uma transeunte, o mais violento é o dela. Assim que o conhecemos não há outro cheiro que embeveça tanto o nosso olfacto.
Mesmo agora, cinco anos após a sua morte, o seu cheiro permanece na casa que habitava, nas ruas por onde se movimentava, nos corpos que amou...…
Faixa 5. Glad to be unhappy 01.46 minutos
Porque sim ou porque não é aquele tipo de resposta que ele odeia. Porque sim não é resposta, porque não a mesma coisa. Excepto quando se fala de um assunto para o qual não há explicação. Porque é que todos os dias te levantas e sais de casa para um emprego que odeias? Porque sim. Porque não te esforças para mudar isso e arranjas algo que te realize? Porque não. Se ela tem assim tantos defeitos, porque não se sentam e conversam sobre isso? Porque não.
Ele aguenta uma conversa destas durante horas, derrotando o adversário por exaustão. Excepto quando se pergunta “como consegues ser feliz se a tua vida é uma miséria?”. Consigo porque sim e vamos mudar de assunto!
Faixa 11. Six laughs one happy 01.40 minutos
Sábado
Quando existe uma rotina há também um desejo de a quebrar.
20h00
Todos os sábados, sem excepção, os irmãos Márcio e Adriana jantam fora.
20h19 – One laugh
Sempre, também sem excepção, ela chega atrasada. Márcio responde ao seu pedido de desculpas com um riso forçado.
20h40 – Two Laughs
Adriana passa os primeiros vinte minutos do jantar a falar de si, da sua vida interessante, das loucuras que faz. Nem imaginas, nunca pensei que fosse capaz, mas olha, fechei os olhos, respirei fundo e segui em frente. É nesta altura que Márcio se ri novamente, um riso forçado.
20h50 – Three Laughs
Depois de contar as suas aventuras, Adriana cala-se e enquanto degusta a entrada que pediu – temperada só com limão, por favor – lança a habitual bomba: E tu? Que fizeste esta semana?
Márcio responde, sem tirar os olhos do copo –para mim é só um martini, por favor – e enquanto toca o seu rebordo com os dedos: nada de especial, o costume.
Segue-se a segunda bomba, és sempre a mesma coisa, precisas de emoção na tua vida. Diz-me lá, se tivesses de mudar alguma coisa, o que mudavas?
A primeira e única coisa que mudava eram estes jantares que são deprimentes. Nunca lhe tinha respondido assim. Nunca tinha sido sincero. Também Adriana nunca tinha sorrido tão forçosamente.
21h30 – Four Laughs
Adriana apenas demora vinte minutos a contar como foi a sua semana, sempre repleta de histórias do arco-da-velha, porque debita palavras a uma velocidade incrível. Já Márcio, extremamente calmo e até contido, demora quase uma hora para descrever o que sentiu quando acabou de ler um livro. Não estava nada à espera, este final não tem nada a ver com o percurso do personagem, é completamente imprevisível. Primeiro, fiquei desiludido, claro, mas depois, pensei melhor, e agora até acho que é um final perfeito.
Pausa. Márcio apercebe-se que Adriana não o está a ouvir. Interessante! Eu adoro finais felizes. Ele repete mais um riso forçado enquanto pensa minha estúpida, ele isolou-se na montanha e deixou-se morrer de fome.
21h32 – Five Laughs
A empregada traz a conta.
Eu pago.
Adriana, deixa-te disso, cada um paga o seu!
Bem, que cavalheiro, pensei que ias dizer que pagavas tu...
És minha irmã, isto não é um jantar de engate, não vale a pena. Cada um paga o seu.
Nem penses, eu pago que ganho cinco vezes mais do que tu!
Márcio guarda a sua carteira, Adriana estende o seu cartão de crédito á empregada e esta articula um riso forçado.
01h43 – Six Laughs (the happy one)
O que Márcio odeia ainda mais do que jantar com a sua irmã é ir beber um copo com ela. Não, o que é ainda pior é partilhar o táxi para casa. Adriana consegue sempre envergonhá-lo, contando uma história triste da infância que partilharam, como quando ele partiu os dentes da frente ou foi apanhado pela mãe a ver revistas pornográficas.
Márcio, há uma coisa que te quero dizer... …
(em pensamento) Mau, as noites de sábado nunca acabam assim, isto deve ser sério... (em voz alta) Diz...
Estou grávida, vais ser tio... ou se calhar, não vais... ainda não decidi... não sei o que fazer... estou desesperada... nem sequer... isto é horrível... nem sequer tenho a certeza de quem é o pai... …
Márcio solta uma gargalhada, daquelas infantis, que chegam a magoar o diafragma. Há semanas que não dava uma gargalhada de felicidade.
Faixa 27. I think the sun is coming out now 01.41 minutos
Estou? A voz arrastada denuncia que estava dormir.
Olá!
Quem fala?
Pequena pausa. Não é a Rita?
Não! A voz peremptória denuncia agora que está irritada por receber uma chamada que é engano às três da manhã.
Desculpa mas conheci uma rapariga num bar e ela deu-me este número, disse que era o dela e para lhe ligar hoje, a esta hora.
Pois, parece que afinal a Rita estava era a gozar com a tua cara...…
E com a tua também...…
Os dois riem-se. Apresentam-se, afinal o nome dela é Lara, ele é o Filipe e está de férias por isso não tem horários a cumprir e está acordado a esta hora. Ela não, tem uma reunião de trabalho de manhã cedo e ainda tem de preparar tudo.
Assim que o sol nascer estou de pé... …
Lara nunca desliga o telemóvel durante a noite porque tem medo que alguém vá preso.
Imagina, o polícia diz “tem direito a uma chamada”, a pessoa liga-me e está desligado. Não sei se depois deixam fazer outra...
Agora ela ri-se sozinha. Ele não achou piada. Com tanta conversa já são quatro e dezassete.
Estás a gastar um balúrdio com esta chamada!
É a empresa que paga!
Entretanto Lara liga o seu telemóvel ao carregador, estava a ficar sem bateria. A conversa dura mais umas horas. Até às seis e um quarto.
Daqui não consigo ver mas o sol deve estar a nascer, é melhor acordares e ires preparar a reunião...
Lara ainda hoje pensa que Filipe lhe vai voltar a telefonar. Mas isso só poderá acontecer daqui a sete anos, quando sair. Levou uma reprimenda dos guardas por ter passado tanto tempo ao telefone e está proibido de o usar.
Queres namorar, tens a hora das visitas, não podes passar uma noite inteira ao telefone. E tens muita sorte de não fazermos queixa de ti ao chefe que ele tirava-te os intervalos e tinhas de ficar na cela.
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