Friday, April 20, 2007

Short stories for recordings of music for films

Faixa 1. Her smell theme 01.37 minutos

De todos os cheiros, aquele que mais se entranha é o dela. Permanece dias a fio nos lençóis, nas almofadas, no ar, nos cortinados, nas roupas desajeitadamente atiradas para o chão. De todos os cheiros, mesmo tendo em conta a astúcia do cheiro a torradas e a sagacidade do perfume de uma transeunte, o mais violento é o dela. Assim que o conhecemos não há outro cheiro que embeveça tanto o nosso olfacto.

Mesmo agora, cinco anos após a sua morte, o seu cheiro permanece na casa que habitava, nas ruas por onde se movimentava, nos corpos que amou...…

Faixa 5. Glad to be unhappy 01.46 minutos

Porque sim ou porque não é aquele tipo de resposta que ele odeia. Porque sim não é resposta, porque não a mesma coisa. Excepto quando se fala de um assunto para o qual não há explicação. Porque é que todos os dias te levantas e sais de casa para um emprego que odeias? Porque sim. Porque não te esforças para mudar isso e arranjas algo que te realize? Porque não. Se ela tem assim tantos defeitos, porque não se sentam e conversam sobre isso? Porque não.

Ele aguenta uma conversa destas durante horas, derrotando o adversário por exaustão. Excepto quando se pergunta “como consegues ser feliz se a tua vida é uma miséria?”. Consigo porque sim e vamos mudar de assunto!

Faixa 11. Six laughs one happy 01.40 minutos

Sábado

Quando existe uma rotina há também um desejo de a quebrar.

20h00

Todos os sábados, sem excepção, os irmãos Márcio e Adriana jantam fora.

20h19 – One laugh

Sempre, também sem excepção, ela chega atrasada. Márcio responde ao seu pedido de desculpas com um riso forçado.

20h40 – Two Laughs

Adriana passa os primeiros vinte minutos do jantar a falar de si, da sua vida interessante, das loucuras que faz. Nem imaginas, nunca pensei que fosse capaz, mas olha, fechei os olhos, respirei fundo e segui em frente. É nesta altura que Márcio se ri novamente, um riso forçado.

20h50 – Three Laughs

Depois de contar as suas aventuras, Adriana cala-se e enquanto degusta a entrada que pediu – temperada só com limão, por favor – lança a habitual bomba: E tu? Que fizeste esta semana?

Márcio responde, sem tirar os olhos do copo –para mim é só um martini, por favor – e enquanto toca o seu rebordo com os dedos: nada de especial, o costume.

Segue-se a segunda bomba, és sempre a mesma coisa, precisas de emoção na tua vida. Diz-me lá, se tivesses de mudar alguma coisa, o que mudavas?

A primeira e única coisa que mudava eram estes jantares que são deprimentes. Nunca lhe tinha respondido assim. Nunca tinha sido sincero. Também Adriana nunca tinha sorrido tão forçosamente.

21h30 – Four Laughs

Adriana apenas demora vinte minutos a contar como foi a sua semana, sempre repleta de histórias do arco-da-velha, porque debita palavras a uma velocidade incrível. Já Márcio, extremamente calmo e até contido, demora quase uma hora para descrever o que sentiu quando acabou de ler um livro. Não estava nada à espera, este final não tem nada a ver com o percurso do personagem, é completamente imprevisível. Primeiro, fiquei desiludido, claro, mas depois, pensei melhor, e agora até acho que é um final perfeito.

Pausa. Márcio apercebe-se que Adriana não o está a ouvir. Interessante! Eu adoro finais felizes. Ele repete mais um riso forçado enquanto pensa minha estúpida, ele isolou-se na montanha e deixou-se morrer de fome.

21h32 – Five Laughs

A empregada traz a conta.

Eu pago.

Adriana, deixa-te disso, cada um paga o seu!

Bem, que cavalheiro, pensei que ias dizer que pagavas tu...

És minha irmã, isto não é um jantar de engate, não vale a pena. Cada um paga o seu.

Nem penses, eu pago que ganho cinco vezes mais do que tu!

Márcio guarda a sua carteira, Adriana estende o seu cartão de crédito á empregada e esta articula um riso forçado.

01h43 – Six Laughs (the happy one)

O que Márcio odeia ainda mais do que jantar com a sua irmã é ir beber um copo com ela. Não, o que é ainda pior é partilhar o táxi para casa. Adriana consegue sempre envergonhá-lo, contando uma história triste da infância que partilharam, como quando ele partiu os dentes da frente ou foi apanhado pela mãe a ver revistas pornográficas.

Márcio, há uma coisa que te quero dizer...

(em pensamento) Mau, as noites de sábado nunca acabam assim, isto deve ser sério... (em voz alta) Diz...

Estou grávida, vais ser tio... ou se calhar, não vais... ainda não decidi... não sei o que fazer... estou desesperada... nem sequer... isto é horrível... nem sequer tenho a certeza de quem é o pai...

Márcio solta uma gargalhada, daquelas infantis, que chegam a magoar o diafragma. Há semanas que não dava uma gargalhada de felicidade.

Faixa 27. I think the sun is coming out now 01.41 minutos

Estou? A voz arrastada denuncia que estava dormir.

Olá!

Quem fala?

Pequena pausa. Não é a Rita?

Não! A voz peremptória denuncia agora que está irritada por receber uma chamada que é engano às três da manhã.

Desculpa mas conheci uma rapariga num bar e ela deu-me este número, disse que era o dela e para lhe ligar hoje, a esta hora.

Pois, parece que afinal a Rita estava era a gozar com a tua cara...…

E com a tua também...…

Os dois riem-se. Apresentam-se, afinal o nome dela é Lara, ele é o Filipe e está de férias por isso não tem horários a cumprir e está acordado a esta hora. Ela não, tem uma reunião de trabalho de manhã cedo e ainda tem de preparar tudo.

Assim que o sol nascer estou de pé...

Lara nunca desliga o telemóvel durante a noite porque tem medo que alguém vá preso.

Imagina, o polícia diz “tem direito a uma chamada”, a pessoa liga-me e está desligado. Não sei se depois deixam fazer outra...

Agora ela ri-se sozinha. Ele não achou piada. Com tanta conversa já são quatro e dezassete.

Estás a gastar um balúrdio com esta chamada!

É a empresa que paga!

Entretanto Lara liga o seu telemóvel ao carregador, estava a ficar sem bateria. A conversa dura mais umas horas. Até às seis e um quarto.

Daqui não consigo ver mas o sol deve estar a nascer, é melhor acordares e ires preparar a reunião...

Lara ainda hoje pensa que Filipe lhe vai voltar a telefonar. Mas isso só poderá acontecer daqui a sete anos, quando sair. Levou uma reprimenda dos guardas por ter passado tanto tempo ao telefone e está proibido de o usar.

Queres namorar, tens a hora das visitas, não podes passar uma noite inteira ao telefone. E tens muita sorte de não fazermos queixa de ti ao chefe que ele tirava-te os intervalos e tinhas de ficar na cela.

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