Friday, April 20, 2007

Sinistro

Xana cortou relações com os pais aos dezasseis anos. Fugiu de casa, nunca se percebeu muito bem por que razão. Assim se iniciou na arte de ser uma pessoa insensível. A saudade, esse sentimento tão tipicamente português, não é para si mais do que uma palavra e nem a considera tão bonita quanto a geralmente tomam. Dos pais nunca mais soube coisa alguma, não quis nem procurou saber, nem sequer admite que quem saiba se atreva a dizer-lhe.

Xana trabalha numa seguradora, no departamento que gere as participações de sinistros. Sendo uma pessoa fria e extremamente capaz de ampliar circunstâncias de modo a evitar personalizações, nunca se reviu nos desabafos dos colegas que confessam ter chorado na primeira vez que tiveram de informar alguém que determinado sinistro não estava coberto pelo seguro. Em tom jocoso, e aproveitando o facto de se chamar Alexandra Bárbara, é conhecida na empresa como Xana, a Bárbara.

Hoje, o primeiro processo que abre é uma participação de morte por atropelamento cuja cobertura foi já validada. Xana introduz o número de processo no sistema informático e treme quando lê o nome do titular do seguro. Yolanda, a colega da secretária ao lado, olha incrédula para as lágrimas que escorrem pelo rosto de Xana. O que foi?, pergunta-lhe, mais curiosa por saber o que fará chorar Xana, a Bárbara do que realmente preocupada com ela. O meu pai morreu…


1 comments:

Rachmaninov said...

Muito, muito bom. Este texto e muitos dos que tenho lido desde ontem no teu blog.

Parabéns. Continua, que tens um leitor assíduo em mim.

Bj.

MM.